“Ciência e arte, embora distintas, se entrelaçam, penetram nessas frestas que o universo e a condição humana nos apresentam sob a forma de mistérios”

Brilho da ciência e da cultura vai nos tirar da escuridão
GILBERTO GIL

Nestes dias em que o governo vem promovendo repetidos e nefastos cortes em Ciência, Tecnologia e Educação – veja as manchetes abaixo – Gilberto Gil, que completou 80 anos dia 26 de junho, nos brinda com um excelente e instigador texto publicado sábado (25/06) na Folha de São Paulo, sobre a necessidade da Ciência, Tecnologia e Cultura.

Em seu artigo Gil nos conta de seu interesse pela ciência , comenta os desafios de cientistas e artistas em desbravar novos mundos e defende a união de ciência e cultura
em um projeto arrojado que beneficie não apenas o Brasil, mas toda a humanidade.

Este compromisso de Gil não se traduziu apenas em suas musicas ou neste artigo. Quando Ministro ele teve oportunidade de demonstrar a busca deste vínculo entre ciência e cultura, ciência enquanto cultura, ao participar e incentivar a preservação da memória da ciência e tecnologia no Brasil.

Em 13 de abril de 2004, Gilberto Gil, enquanto Ministro da Cultura e o Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação Eduardo Campos incentivaram e participaram da inauguração do Centro de Memória do CNPq, com seu arquivo de documentos e peças museográficas, sua biblioteca especializada em políticas em ciência e tecnologia – batizada então de Biblioteca Lygia Portocarrero, um programa de história oral e sua área de pesquisa, produção e popularização da ciência.

A inauguração do Centro de Memória do CNPq significou um avanço nas políticas para preservação da memória da ciência no Brasil, e iniciou um trabalho de recuperação, tratamento e divulgação de documentação, em todos formatos, da principal agência de fomento no país, o CNPq, servindo de incentivo para que outras instituições também criassem programas e ações de preservação da memória da ciência e tecnologia.

Infelizmente o Centro de Memória foi sendo desconstruido por aqueles que não entenderam a necessidade da memória na formação do povo brasileiro, para a construção do futuro do país, que não comungam com Gilberto Gil quando em seu artigo ele afirma “a ciência é parte da cultura, se por cultura entendemos não um conjunto de obras canonizadas segundo uma régua histórica de desigualdade, mas como uma constelação dinâmica na qual se inscrevem os atos criativos de um povo. E a tecnologia é o encontro da ciência com o terreno das práticas culturais as mais diversas, propiciando a transformação de como organizamos nossa rotina individual e nossa vida coletiva.”

Este lento desmonte tem início com a ação do então presidente do CNPq, Marco Antonio Zago que decide que o Conselho não precisava de uma biblioteca e transfere o arquivo do Centro de Memória para Setor Policial Sul, para dar espaço para a construção de um auditório que nunca foi concretizado. Mais tarde o presidente do CNPq Mario Neto Borges acaba com todo o espaço de trabalho do Centro, desestruturando sua ação e produção, mantendo apenas os arquivos preservados.

Esta lembrança da inauguração do Centro de Memória do CNPq não apenas reforça o compromisso de Gil com a ciência, com a cultura e o futuro, mas também demonstra o compromisso do servidores da carreira de gestão em ciência e tecnologia com a ciência e a cultura, pois o Centro de Memória nasceu e se manteve por iniciativa dos servidores do CNPq.

Recentemente o Centro de Memória do CNPq passa por uma reativação, agora vinculado à Coordenação de Comunicação Social do CNPq.

Ao escrever sobre ciência e cultura, Gil reafirma sua visão e nos coloca diversos questões e desafios , algumas das quais os gestores em ciência e tecnologia tem também debatido e defendido. Destas gostaríamos de destacar.

Ao contrario dos que estão no poder, representando grandes grupos corporativos do mundo das finanças e do agronegócio, acreditamos que o desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil depende de políticas publicas, da ação do Estado que as tome como fundamentais na busca do desenvolvimento sustentável.

O estado tem que investir em ciência e tecnologia para a busca de soluções para os problemas nacionais. E isto se faz através das agências federais de fomento a ciência e tecnologia, como o CNPq, a CAPES, a Finep, entre outras, das universidades federais e dos institutos públicos de ciência, tecnologia e inovação. Afirma Gil em seu artigo: “A política científica tem que ser reconstruída e expandida. Ela deve ser maior que um ou dois ministérios, deve se organizar como um sistema cujos polos estejam mais interligados e com financiamento à altura do desafio de fazer avançar a ciência nacional.”

As carreiras de ciência e tecnologia, em particular a de gestão, planejamento e infraestrutura, são fundamentais para que as políticas públicas possam dar resultados, para que o recurso público chegue onde seja necessário, para que possamos atuar de forma transparente, dentro da legalidade, com eficácia e eficiência e de forma impessoal. E são estes que vão atuar para que “(….) que pesquisadores disponham de recursos para tocar seus projetos, elaborar novas perguntas, engajar jovens cientistas em processo de formação, contratar pesquisadores que sejam valorizados com bolsas que lhes permitam total dedicação a seus projetos.”

Gil em seu artigo reconhece este papel do Estado: “O Estado, porém, mesmo se distante dessa mina preciosa de criatividade, sempre atuou como o indutor fundamental desse processo, por meio de políticas de ensino superior e de ciência e tecnologia (…)

Porém, ele afirma que para avançamos temos que ir além do que tem sido feito:

“A ciência para o futuro exige esse tipo de encontro e de energia disruptiva. A história da ciência no Brasil ultrapassa as fronteiras das disciplinas e das instituições —ela se origina na etnociência dos povos indígenas, passa pelas observações astronômicas dos jesuítas, se difunde entre médicos e boticários, sangradores e curandeiros do Rio de Janeiro machadiano.

A ciência, à imagem do Brasil, é uma força em movimento que invade os mais diferentes corpos sociais e culturais, misturando raças, culturas e religiões. Sua institucionalização no século 20 foi certamente desigual, cerceada, com idas e vindas, mas ainda assim rebelde e brilhante.”

Faz-se necessário construir um “novo modo” de produzir e fomentar a ciência, a tecnologia e a inovação no Brasil para que ela venha atender nossos anseios, os anseios do povo brasileiro e as necessidades do país. A construção deste novo modelo de desenvolvimento técnico-científico passa por reconhecer a diversidade étnica, cultural e socioambiental do Brasil. Nossas políticas públicas devem nascer da criatividade e diversidade de nossa população. Devemos tomá-las como fonte de conhecimento, com seus saberes populares, mas também tomá-las como demandantes por novos conhecimentos, tecnologias e inovações. Não podemos ficar dependentes apenas das demandas da indústria e do agronegócio. Não avançaremos para uma sociedade mais justa e igualitária se a ciência e tecnologia não estiverem vinculadas também a economia solidária, ao desenvolvimento de tecnologias sociais, as demandas populares, a solução de nossos problemas.

Diz Gilberto Gil em seu artigo:

“Imaginar o futuro para o Brasil, e a partir do Brasil, é promover a urdidura entre as ciências mais avançadas e os saberes populares, entre a sensibilidade dos povos das florestas e a dos quilombos, entre os métodos dos cientistas sociais e a sabedoria das periferias, entre a ciência biomédica e o conhecimento que brota dos encontros no asfalto, na terra e na mata.

Somos um povo fundamentalmente sincrético, que sabe inventar o novo com base em tradições e signos a princípio contraditórios ou incongruentes, mas que em seu entrechoque permitem que surjam contribuições ao progresso mundial.”

Manter, difundir e recriar a memória destas trajetórias, destes sincretismos é responsabilidade social, é construir nossa identidade, nosso pertencimento e acumular experiência para podermos seguir mais adiante…

Nós servidores, gestores em ciência e tecnologia, devemos buscar de forma cotidiana, em nossas ações de gestão, planejamento e infraestrutura, “imaginar o futuro para o Brasil, e a partir do Brasil“. Devemos ter sempre presente este “aspecto” e atuar dentro do preceito fundante da ação pública: construir o bem estar e o progresso para todos(as).

Leia o artigo completo de Gilberto Gil: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2022/06/brilho-da-ciencia-e-da-cultura-vai-nos-tirar-da-escuridao-diz-gil.shtml

Autor: Roberto Muniz Analista Sênior em C&T, Geógrafo, Mestre em Educação e Doutor em Sociologia

As opiniões e informações contidas neste artigo (post) são de total responsabilidade do autor. O SindGCT apenas fez sua publicação.

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